quarta-feira, 1 de julho de 2015

MISAEL




(Burk Uzzle)

O pior é que o traficante de drogas também é um homem sozinho. Ao menos os traficantes de periferia, que são os únicos que conheço. Sabe como é, ele diz, a mercadoria é pouca, barata, daí não dá para fazer graça com ninguém. Misael vende apenas crack; cocaína, quando tem, eu uso. O que resta – quando resta – trata de misturar com meia dúzia de comprimidos para dor de cabeça, dá para render e fazer um troco. Misael está jantando enquanto me diz essas coisas, segura o garfo e a faca como se fosse brigar com alguém e mastiga a carne como se ela fosse a sua própria língua. Comento isso da carne e ele diz que é porque ela está quente, muito quente. E sorri mostrando seu elenco bucal desfalcado. E ri mais ainda quando comento que o que deve dar moleza na cocaína que as pessoas do bairro usam é a maisena, o giz, a cal ou a farinha de trigo que outros, antes dele, devem botar, em menor quantidade, na droga junto com mais dorflex.

Tão frágil quanto seu sorriso só seus conselhos sobre saúde: “Pó é maravilhoso, se fosse ruim ninguém usava essa porra, mas não caia nessa!” E também seu cuidado em colocar adoçante no cafezinho me parece exagerado, muito exagerado. Ou suspeito, já que ele embolsa vários envelopes. Vai ver acabou o dorflex, penso antes de adverti-lo que sou o maior careta que conheço.

Quando conheci Misael ele já era um garçom de índole duvidosa. Trabalhou por muito tempo no restaurante que meu pai tinha em São Miguel dos Campos, nasceu garçom e resolveu, sabe-se lá porque (embora eu imagine bem o porquê) virar traficante aos 42 anos, quando experimentou crack pela primeira vez; antes, só tinha usado maconha para trabalhar. Quando empunhava bandejas, chegava sóbrio e aos poucos ia se embebedando no correr das horas, disso eu me recordo. Hoje, acho um milagre que meu pai o tenha mantido por tanto tempo no emprego. Mas talvez conservar aquele pobre diabo por doze anos e ainda lhe dar uma gorda rescisão seja uma das poucas virtudes de meu pai em vida, das qualidades de Misael, a mais aparente é a de não andar armado e a de só vender à vista, para evitar desavenças. 

Não há ninguém nas outras mesas. Misael pergunta do que eu gosto. Como assim? Devolvo. Vicio, você tem algum? Ele completa. Depois de muito pensar digo que gosto de livros. Gosto de ler romances... E fora a cocaína, Misael, do que você gosta? De dorflex, ele diz. E dessa carne também.  

Cid Brasil

terça-feira, 16 de junho de 2015

A PROFISSÃO DOS VAGABUNDOS


(Stanley Kubrick)



Tive um amigo que foi corretor de imóveis e no começo do ano fui visita-lo naquelas caixinhas formadas por compensados que dizem “plantão de vendas” na porta e que funcionam até aos domingos, dia em que as pessoas pensam em mudar de vida embora jamais pensem em começar pela parte mais cara. 

Para o meu amigo essa escala dominical residia no fato de que todos na empresa o tinham como o mais preguiçoso dos funcionários, e eu sempre dizia que não, que muito pelo contrário, que eles o viam como o mais corajoso dos homens para aguentar aquilo lá (e nessa parte sempre estendia os braços e mostrava para ele a maquete do prédio que nunca ficaria pronto, o ar condicionado cansado e sujo, os cartões anônimos que só tinham o nome dele com canetinha, as cadeirinhas de metal que eram mais decorativas que confortáveis...), nem na bíblia, meu velho, eu dizia, eles trabalham aos domingos e olhe que lá há muito disparate, você sabe! E ele, o meu amigo, que escapou quando criança de duas igrejas (batista e evangélica) sem maiores traumas cerebrais sorria. E nesse mesma tarde lembro que quando cheguei, notei que ele escrevia numa folha o nome das pessoas que lhe deviam dinheiro (eu era o quinto: seiscentos reais!), e o animei lhe propondo um jogo onde tínhamos que enumerar ao invés dos devedores, os vagabundos remunerados, ou as profissões dos vagabundos: Taxista, eu disse primeiro. Corretor de imóveis, meu amigo disse. E assim seguimos pela tarde, até que fechamos uma lista com astronauta e escritor. E lhe recitei uma frase do escritor Alejandro Zambra que diz que para quem tem vontade de escrever, qualquer trabalho basta, não importa muito a profissão, desde que lhe paguem e que você tenha tempo para escrever. Mostrei a meu amigo a vantagem daquele emprego, que se ele quisesse se converter em poeta ou escritor, a profissão perfeita era aquela. Havia mesa no cubículo, cadeiras (apesar dos pesares) e silêncio, era quase uma prisão no Alpes Suíços. Você está dizendo isso para si mesmo, Cid, disse o meu amigo e com muita melancolia constatei que era verdade. Uma pena ele ser loiro e eu moreno, se não teria trocado de identidade com meu amigo corretor ali, no ato. Ele que vendesse minha cara por aí, ao preço que quisesse.

Nessa tarde de domingo, falei para ele que o que me atraia na vagabundagem era a possibilidade de olhar o horizonte a tarde, sem maiores pretensões, aproveitando o simples fato que não ter nada o que se ver nesses horizontes e o meu amigo corretor me aconselhou que se meu negócio eram “horizontes descampados” que tratasse logo de virar boia-fria (o que é uma profissão bem distante da vadiagem) e aí julguei que ele já estava irritado comigo, ou com meu débito e me fui.

Hoje de manhã chegou um e-mail desse meu amigo corretor e ele diz que desistiu de vender covas rasas para as pessoas, diz ainda que conseguiu um bom dinheiro através daquela lista de devedores e junto com a indenização vai comprar um táxi e passear por aí, irei olhar os horizontes dessa cidade feia, ele me diz e diz que só vai perdoar o dinheiro que lhe devo porque lhe abri os olhos, que taxista é mesmo uma profissão vagabundamente gostosa de se ter (ele ainda não é, mas já fantasia que sim) e que ademais só o que precisará é evitar a vulgaridade dos outros taxistas que só falam de carro e mulher. Também fala que vai me perdoar os seiscentos reais que lhe devo por que hoje é meu aniversário. Parabéns para mim!
Cid Brasil

sexta-feira, 29 de maio de 2015

DUDA (OU DOIS LADRÕES NUMA CASA MORTA)

(Gerard DuBois)



Se as vigas da casa tivessem quebrado talvez... Foi o que pensei assim que pus o pé naquela estante, enquanto descíamos. Você pulou direto do teto, era mais da ação, quem escorregou pela estante fui eu. Bati logo os olhos no gato de porcelana estendendo a pata no ar. As chaves que você tanto queria, da moto do velho, estavam por trás do gato. Havia ainda sete miniaturas de garrafas de coca-cola em cima da TV e um videocassete. A TV estava quente, vai saber a quantos dias estava ligada, ligada só para dar voz a casa. Na sequencia veio um comercial de margarina, um de salsicha e outro de biscoitos. Os vizinhos iriam desconfiar se eu fizesse o que você mandou, que era desligar a TV, pois apesar de também sermos vizinhos, havia os do outro lado, tinha a Dona Neide e a vida de todo mundo ali era a novela preferida da Dona Neide.

No quarto, uma cortina dava forma ao fantasma. Ia e vinha. Porra, também nunca esqueci aquela cortina balançando! Tinha uma cadeira fazendo o papel de criado mudo. Um copinho de água e um monte de caixinha de remédio lá. Você colocou todos no bolso da bermuda e disse que deviam dar barato. Mas aquelas porras eram só relaxantes musculares. Hoje, te confesso, chego a chorar de raiva me perguntando qual é o filho da puta que vende relaxante muscular para um velho com cirrose.

O infeliz morreu de boné, você disse se benzendo enquanto olhava para o Seu Samuel estirado na cama. Você tirou o boné dele e pôs do lado da cama. Eu me benzi também, mas nunca acreditei em deus, só acreditava em você, Duda. Até sua raiva pelo vigia eu adotei como minha, mas a figura do Seu Samuel me era indiferente, tudo bem que ele atrapalhava nossas correrias, mas era o trampo dele vigiar o sono daqueles bacanas. Você nunca teve patrão, Duda, eu sim, agora tenho e sei como é chato e como eles atrapalham a vida e que é preciso atrapalhar a vida de outros para esquecê-los também. Você disse algo que não ouvi enquanto vasculhava o armário do velho. Ninguém dava bola para ele, só você Duda, que o detestava. Que se benzeu. Vai ver você estava perguntando ao morto onde estavam as chaves.

Voltei na sala com minha inocência, só pensando em levar aquelas garrafinhas para o meu irmão e o gato de porcelana para minha avó e foi aí que achei as chaves, ainda pensei cara, admito, em escondê-las, pois além de não querer fazer aquilo, roubar um morto, na hora senti algo muito ruim quando vi as chaves, eu sabia que você ia vendê-la para comprar um revólver e dois meses depois, isso eu não sabia, você já aleijado por ter dado uma de valente naquele bar de playboy, diz que vai se matar, que qualquer coisa é melhor que ficar numa cadeira de rodas. No fim, Duda, aquele revólver só foi usado em você. Até hoje, mesmo cobrador de ônibus, mesmo lendo esses livrinhos de merda durante as viagens, até hoje Duda, eu penso em você, penso que a única vez que alisei teu cabelo, que te dei um beijo, que te abracei, foi quando você estava no caixão. Seu cabelo era bom, macio... Até me julgo meio veado, meio apaixonado por você. Porra, Duda, nem para minha mulher eu escrevo essas coisas...

Na parede, só havia um daqueles retratos que só tem na casa de gente velha e lá estava o Seu Samuel e uma senhora. A vida é foda. Olhei as garrafinhas, peguei uma e vi as chaves da moto. E o velho parecia rir na foto. Tenho que encontrar a culpa para dividir com alguém, Duda. É foda. Ele estava sorrindo na foto, mas a culpa não é dele, nem sua, nem minha. As vigas.

Cid Brasil


quinta-feira, 14 de maio de 2015

NINA E RODOLFO


(Odyr Bernardi)



Eram dez da manhã quando cheguei ao trabalho com a imperiosa vontade de ouvir discos de Nina Simone. Queria ouvi-la antes do primeiro café com leite, antes dos e-mails, antes das noticias ruins, das fofocas de trabalho, dos jornais, dos clientes, antes do último chá e de ter de dormir de novo... Fui trabalhar motivado apenas pela certeza de que a vida nos escapa por entre os dedos seja ao som de Calcinha Preta ou de Mozart. No mais, trabalhamos por que é preciso morrer de alguma coisa, tal qual nos ensinou Júlio Cortázar. Seja numa prova de concurso visando o futuro ou as margens do Sena flanando pelo presente a vida sempre parecerá incompleta em qualquer situação. Mas sigamos o exemplo da orquestra do Titanic e busquemos um pouco de classe.

Sobre Nina Simone, assim como tudo que vem abaixo ou acima do céu, sei pouco, muito pouco e é quase um milagre acordar e querer ouvi-la. Segundo o Deus Google, o álbum que escutei pela manhã curiosamente era o primeiro, o debute, de Nina, e se chama “Little Girl Blue”, cuja capa do disco é uma jovem Simone, sentada num banco de um parque como se esperasse alguém enquanto olha para nós, mortais, já sabendo que qualquer espera é inútil. Ainda mais se for a espera do sucesso ou da confirmação de nossos talentos. Estamos no fim dos anos cinquenta, ela é mulher, negra e nascida nos Estados Unidos, portanto, gravar um disco nessas condições (e suspeito que até nas atuais) será sempre algo digno de suspeitas por parte de qualquer artista minimamente sensível. Mas deixemos o sucesso de lado, pois citá-lo ou buscá-lo é sempre imoral, disso sabia Nina Simone. Disso sabe Rodolfo, que é um menino discreto e que gosta de colecionar o que não se pode tocar e também aprecia a arte de encarar os cadarços de seus tênis.

Rodolfo tem 9 anos e é filho de uma amiga de minha mãe e passou a tarde em meu trabalho (trabalho com minha mãe, mas não é tão folgado quanto parece. Ok, em algumas horas sim!). O menino Rodolfo só me dirigiu a palavra em duas oportunidades durante as seis horas que convivemos: Queria saber o que tanto eu escrevia aqui (falei que respondia e-mails) e qual a senha do wi-fi. Até aí nada de anormal, exceto o fato dele não ter celular ou tablet (algo tão comum entre as crianças). Quando falei a senha: vamos_pensar_na_polvora. Ele riu e disse ok. Para que você queria a senha, Rodolfo? Para rir, ele disse, e também por que gosto de saber as senhas das pessoas, algumas são engraçadas. Ah, você coleciona senhas? E Rodolfo disse que era mais ou menos isso, mas que era um pouco difícil de explicar.

Achei interessante, não gosto muito dos gênios precoces que povoam as crônicas, mas Rodolfo é espirituoso e aprecia a solidão. Não conversamos mais, apesar dele dizer que o som que rolava no meu computador era bom.

Cid Brasil